Transformando solidão em exemplo

Única mulher entre mais de cem pilotos que disputam o evento da Stock Car, Bia Figueiredo sabe que muitas meninas se miram nela

A Stock Car é a atração maior do festival de velocidade promovido pela Vicar em doze fins de semana do ano. Junto com a principal categoria nacional dividem as pistas Copa Petrobras de Marcas, Brasileiro de Turismo, Mercedes-Benz Challenge e Fórmula 3. Ao todo, são mais de cem pilotos competindo. Embaixo dos capacetes e luvas, apenas um deles está usando batom e esmalte: Bia Figueiredo. Nada de novo para a paulistana que completa 31 anos no próximo dia 18 e está nas pistas há mais de vinte. A longa estrada faz com que no Dia Internacional da Mulher Bia se veja não só como um exemplo para as meninas que desejam ingressar no mundo masculino do automobilismo, mas também em qualquer setor corporativo onde os homens predominam não apenas por estarem em maior número, mas por ganharem maiores salários e melhores oportunidades.

“O automobilismo é um dos poucos esportes em que homens e mulheres competem juntos. É uma modalidade que exige força e resistência, mas nada que possa dar vantagem física ao homem. A questão é estar quase sozinha num universo muito predominantemente masculino, e às vezes, machista. Mas acho que essa convivência só me fez amadurecer pessoal e profissionalmente. Uso meu espaço para mostrar à meninas e mulheres que é possível alcançar seus objetivos com foco e determinação, independentemente de gênero, e particularmente no automobilismo para ajudar a quebrar um pouco a cultura que associa carro a homem. Muitas vezes numa família um menino faz 18 anos, tira a carteira de motorista e ganha carro, enquanto a menina espera...”, diz Bia, primeira mulher no mundo a vencer uma corrida de Fórmula Renault, primeira a vencer na Indy Lights e única brasileira a correr numa categoria top do automobilismo mundial, a Fórmula Indy.

Entre os pilotos, Bia não se sente discriminada. “Muitos aqui correram comigo desde o kart, estamos mais que acostumados a dividir boxes e curvas. Claro que quando chego num bolinho onde eles estão falando de mulher o assunto muda, e entre homens existe aquela coisa de não querer perder de mulher, mas não me sinto prejudicada em nada pela diferença de gênero”.

A estreia de Bia Figueiredo em 2016, no último domingo (6) não rendeu pontos. Mas a única piloto mulher em meio a mais de trinta homens que disputam a Stock Car deixou a certeza de que esta será sua melhor temporada na principal categoria do automobilismo nacional.

Durante o fim de semana da Corrida de Duplas que abriu o calendário da Stock Car, em Curitiba (PR), Bia teve como parceiro o pernambucano Beto Monteiro, duas vezes campeão da Fórmula Truck, e teve seu carro mais veloz em três temporadas. Em seu segundo ano na equipe do engenheiro Eduardo Bassani, a piloto do Peugeot número 3 foi a segunda mais rápida no seu grupo e a 11ª entre os 32 pilotos titulares na sessão de classificação. Somado o tempo de Beto Monteiro na sessão dos convidados, a dupla ficou com a posição de largada número 13 no grid da Corrida de Duplas.

Bia foi tocada na largada, ficou encaixotada e caiu para 19º lugar ao fim da primeira volta. Fez cinco ultrapassagens e entrou no pit stop para troca de piloto, pneus e reabastecimento em 14º lugar. Logo depois de sair do box, o companheiro Beto Monteiro foi atingido fortemente por Valdeno Brito, perdeu o controle do carro, bateu e teve que abandonar a prova.

“Eu saio daqui triste pelo que aconteceu na prova, onde tanto eu quanto o Beto fomos atrapalhados e não pudemos traduzir na pista o potencial do carro, mas muito, muito feliz com a evolução da equipe. Tenho absoluta certeza de que 2016 será meu melhor ano na Stock Car”, prevê Bia.

Para a temporada 2016, Eduardo Bassani contratou o experiente engenheiro argentino Gustavo Câmara. “A evolução da equipe começou na oficina, em Itu, na montagem do carro. Quando desceu do caminhão e entrou na pista em Curitiba, o carro já era muito superior ao de 2015. Na realidade, a Stock Car tem muito pouco tempo de treino, o trabalho feito na oficina é fundamental para que no fim de semana de corrida a gente só faça um ajuste fino. E deu pra sentir que nossa equipe deu um grande passo à frente. Estou muito animada com o resto da temporada”, concluiu Bia. A próxima etapa da Stock Car acontece dia 10 de abril, no Velopark, em Nova Santa Rita, na Grande Porto Alegre (RS).